Negra, favelada, empregada doméstica, catadora de papel. Foge, portanto, aos padrões naturais que se espera de uma escritora que se tornou célebre por sua obra literária. Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, Minas Gerais, em 1914. Frequentou até o segundo ano do Ensino Fundamental. Como não possuía livros em casa, lia, por empréstimo, os que uma vizinha lhe cedia. Ao mudar-se para São Paulo, passou a trabalhar na casa do médico Euryclides de Jesus Zerbini. Lá teve a oportunidade de, nas horas de folga, fazer leitura de obras encontradas na biblioteca do patrão. Ao engravidar deixou o emprego e se dedicou à atividade de recolher papel na rua para reciclagem, separando alguns que ofereciam condições de usá-los para suas escritas diárias.
Escrevia sobre a sua vida na favela do Canindé, na Zona Norte de São Paulo. Em 1950, publicou um poema em homenagem a Getúlio Vargas, no jornal O Defensor. Até que um dia, casualmente, conheceu o jornalista Audálio Dantas, quando ele visitava a comunidade em que morava, com o objetivo de fazer uma matéria. Deparando-se com os papéis do diário de Carolina, ficou impressionado com o seu conteúdo e decidiu ajudá-la a publicar seu primeiro e mais famoso livro: “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, em 1960. Tornou-se um sucesso de vendas. Saiu finalmente da favela e mudou-se para uma casa no bairro de Santana.
Já conhecida nacionalmente, no mesmo ano em que fez sua estréia na literatura brasileira, recebeu homenagens da Academia Paulista de Letras e da Academia de Letras da Faculdade de Direito de São Paulo, além de receber um título honorífico da Orden Caballero del Tornillo, na Argentina, em 1961.
Publicou mais três livros em vida: Casa de alvenaria (1961); Pedaços da fome (1963) e Provérbios (1965), além de dois póstumos: Diário de Bitita (1986) e Meu estranho diário (1996), que não despertaram o mesmo interesse do primeiro. Descartada pela crítica literária brasileira, teve de voltar à condição de catadora de papel para garantir a sobrevivência. Em 1994 os escritores José Carlos Sebe Bom Meihy e Robert M. Levine, publicaram “Cinderela negra: a saga de Carolina Maria de Jesus”, relançado depois nos Estados Unidos. Eles, pesquisadores da obra e da vida de Carolina, organizaram ainda mais dois livros compostos por textos deixados pela escritora: “Meu estranho diário e Antologia pessoal”, editados em 1996. O “Quarto de despejo”, obra prima de Carolina Maria de Jesus foi traduzido para vários idiomas, sendo conhecido por cerca de 40 países e vendeu mais de três milhões de exemplares.
Segundo Fernanda Rodrigues de Miranda, mestre em Letras: “Carolina Maria de Jesus é precursora da Literatura Periférica no sentido de que ela é a primeira autora brasileira de fôlego a constituir a tessitura de sua palavra a partir das experiências no espaço da favela, isto é, sua narrativa traz o cotidiano periférico não somente como tema, mas como maneira de olhar a si e a cidade. Por isso, seu olhar torna-se cada vez mais crítico diante do cenário de ilusões que São Paulo projetava com sua falsa imagem de lugar com oportunidades para todos”.
Morreu aos 63 anos de idade, asmática, esquecida pelo mercado editorial. Seu trabalho literário ressurgiu nos anos recentes, conferindo-lhe a fama de uma das grandes escritoras da literatura brasileira. Em 2017, sua história foi registrada por Tom Farias em Carolina – Uma Biografia, publicada pela editora Malê. Era também cantora, escritora de contos, crônicas, letras de música, peças de teatro e artista têxtil. Sua herança está sendo disputada na Justiça pelas netas e pela filha da autora.
Rui Leitão



