Os movimentos femininos emancipatórios da década de 20 do século passado, oportunizaram às mulheres ganhar maior visibilidade na ocupação dos espaços públicos. Na Paraíba algumas se destacaram como protagonistas dessas lutas. Dentre elas, Eudésia de Carvalho Vieira. Paraibana, nascida no povoado de Livramento, município de Santa Rita, no ano de 1894, foi uma mulher plural, polivalente. Professora, historiadora, escritora, crítica literária, ensaísta e médica.
Em 1911 formou-se pela Escola Normal da Paraíba, sendo admitida, quatro anos depois, como professora do ensino público estadual, através de concurso público, iniciando a carreira do magistério na cidade de Serraria. Em 1917 se casou com José Taciano da Fonseca Jardim, com quem teve cinco filhos. Contrariando a vontade do marido, matriculou-se na Faculdade de Medicina, em Recife, sendo a única mulher da turma e a primeira paraibana a receber o diploma de ciências médicas e cirúrgicas, dedicando-se às áreas de ginecologia e obstetrícia, com consultório instalado na Rua Duque de Caxias, em João Pessoa. Durante o período em que esteve frequentando o curso de medicina foi obrigada a trancar a matrícula, algumas vezes, em razão da jornada tríplice de mãe, esposa e professora.
A atividade profissional que abraçou não fez com que abandonasse a sua vocação para escritora. Publicava seus artigos em jornais e revistas da Paraíba no começo do século XX. Em uma dessas publicações na revista Era Nova, escreveu um texto intitulado “A Mulher”, dedicado a seu marido, onde defendeu a liberdade para as mulheres atuarem igualitariamente com os homens em todos os espaços em que se mostrassem competentes. Como historiadora fez por merecer sua eleição para ocupar a cadeira de número 04 do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, em 1922. Em 1933, como sufragista, organizou uma conferência para “defender a necessidade da colaboração da mulher brasileira nos futuros destinos do Brasil”, reivindicando o direito feminino de votar e ser votada.
No seu livro “Torpedeamento do Afonso Pena”, relata os momentos angustiantes que viveu em 1943, quando fazia uma viagem de navio partindo de Recife em direção ao Rio de Janeiro, que foi atacado pelos italianos na costa do estado da Bahia, causando a morte de 125 pessoas. Eudésia conseguiu, no entanto, se salvar, considerando ter sido beneficiada por um milagre de Nossa Senhora de Fátima, de quem se tornou devota fervorosa.
Segundo a professora Anice Oliveira, “Eudésia Vieira foi uma vanguardista quanto a sua posição social e quanto a mulher ferindo preconceitos sexistas tradicionalistas que imperavam no inicio do século”. Em maio de 1933, a jornalista Lylia Guedes escreveu no Jornal do Brasil Feminino, o artigo “A mulher Parahybana: seu desenvolvimento intelectual”, assim se expressando: “Eudésia Vieira, professora e acadêmica de medicina, é outra joia da intelectualidade feminina parahybana. Cursa actualmente o 5º ano da Faculdade – o que no seu caso particular de esposa e mãe – é a prova evidente de uma vontade de ferro a serviço de um grande talento. Já publicou um livro de versos: ‘Cirrus e Nimbus’ e um de História da Parahyba para usos das escolas deste Estado.” Em seu livro “Terra dos Tabajaras!” deu voz aos índios da Paraíba, denunciando o processo de escravidão a que estavam submetidos.
Morreu em 16 de julho de 1981 e foi homenageada com seu nome dado a uma rua no Bairro dos Estados, em João Pessoa.
Rui Leitão



