Narcisa Amália dos Campos foi a primeira mulher no Brasil a se profissionalizar como jornalista, notabilizando-se nacionalmente pelos artigos que publicava em favor da abolição da escravatura, em defesa dos direitos da mulher e dos marginalizados pelo poder público. Fundou no Rio de Janeiro, quando lá passou a morar em 1884, um jornal quinzenal, intitulado“O Gazetinha”, suplemento do Tymburitá, que tinha como sub-título “folha dedicada ao belo sexo”.
Nasceu em 1852, no município de São João da Barra-RJ. Aos onze anos de idade sua família mudou-se para Rezende. Herdou do pai a inclinação para a poesia. Seu primeiro e único livro, “Nebulosas”, escrito quando tinha vinte anos, foi definido por Machado de Assis como “poemas de exaltação à natureza, à pátria e de lembranças da infância da jovem e bela poetisa”. Seus versos se distinguiam pela forma com que equilibrava lirismo e comentários políticos, na defesa dos seus ideais progressistas, considerados avançados para a época. Ficou conhecida como “a poeta dos livres”, por suas posições cantando o patriotismo e a identidade nacional.
Dialogou com a poesia de Castro Alves, dedicando-lhe um poema quando de sua morte, em que afirmava a imortalidade dos poetas: “não morreste, que não morrem Goethes, nem Camões, nem Dantes”. Dom Pedro II, numa de suas viagens a Rezende, manifestou o desejo de conhecer “a sublime padeira” para provar do seu pão espiritual, embora fosse ela uma fervorosa republicana e abolicionista. Por ser casada com um padeiro, foi assim que o Imperador se referiu a ela.
Ela foi, sem dúvidas, um exemplo da expressão de manifestação pública feminina. Produzia uma poesia engajada, inspirada nas preocupações políticas e sociais do tempo em que viveu. Como jornalista fez críticas, propôs mudanças e sonhou com um país mais justo. Tinha consciência de que poderia atuar como agente transformador da sociedade em que vivia. Em artigo publicado no Jornal A República de 19.05.1873, Narcisa afirma que “cabia ao poeta deixar forçosamente as regiões fantásticas do idealismo para arremessar-se nas lutas”.
A liberdade era um dos seus temas preferidos e julgava que só a República poderia oferecer à Nação esse tão sonhado ideal. Assim ela atacava a Monarquia: “Roubaste ao povo a palma do triunfo/Recompuseste a algema ao pé lançada/E moldaste no bronze a estátua fria/Da mentira loquaz .” Os padrões culturais da época em que viveu não aceitavam que mulheres tomassem posições políticas. Por isso foi alvo de inúmeras críticas, principalmente masculinas.
A partir de 1902 sua produção literária cessou completamente, fazendo com que muitos achassem que ela estava morta. Morreu na verdade em 24 de julho de 1924, aos setenta e dois anos, relativamente esquecida. Entretanto seus escritos a credenciam como uma importante e destacada figura feminina do século XIX.
Rui Leitão


