Influenciado por experiências políticas europeias e dos países vizinhos que conquistaram a independência, orientados pelo ideal republicano, o Brasil imperial passou a sofrer forte oposição ao regime e a defesa da instalação de uma república. Os defensores do novo sistema de governo acreditavam que a monarquia operava como o grande sustentáculo do escravismo. O uso da mão de obra escrava nos colocava numa posição de inferioridade diante de outras nações industrializadas que já haviam abolido a escravatura. O abolicionismo, então, estaria ligado aos destinos políticos do país. Com a república, o Brasil se livraria do atraso social, assim pensavam.
Os republicanos estavam alinhados às ideias positivistas correntes do século XIX, enxergando a república como um imperativo ou uma necessidade de ordem evolutiva da sociedade brasileira. Eram estimulados, também, pelos preceitos democráticos como forma de atendimento aos anseios populares. Compreendiam que a república estabeleceria um novo cenário político e intelectual ao país. O “Manifesto Republicano”, por eles elaborado em 1870, em um dos seus trechos, afirmava: “A topografia do nosso território, as zonas diversas em que se divide, os climas vários e as produções diferentes, as cordilheiras e as águas estavam indicando a necessidade de modelar a administração e o governo local acompanhando e respeitando as próprias divisões criadas pela natureza física e impostas pela imensa superfície do nosso território”.
O governo de Dom Pedro II estava em evidente desgaste. Ao falar sobre os climas, recursos hídricos e regiões que integram o nosso território, eles reforçavam o federalismo como uma questão importante para a criação da república, conferindo autonomia administrativa aos diversos estados, melhor tratando as diferentes especificidades de cada região. O centralismo e o autoritarismo eram marcas fortes do sistema imperial vigente. O Imperador era um elemento político absoluto. O governo republicano seria apenas um meio de romper laços com o status quo. Após a publicação do Manifesto Republicano, surgiram partidos, clubes e jornais expressamente inclinados a este novo ideal.
A ideia republicana, no entanto, não era uma novidade, pois esteve presente na história brasileira em diversas revoltas armadas e movimentos políticos ocorridos durante o Império – ou mesmo antes – como na Guerra dos Mascates (1710), na Inconfidência Mineira (1789), na Revolução Pernambucana, (1817), na Confederação do Equador (1824), na Cabanagem no Pará (1835), na Farroupilha no Rio Grande do Sul (1835), na Sabinada na Bahia (1837), na República Catarinense ou Juliana (1839) e na Revolta Praieira em Pernambuco(1848). Mas eram manifestações de caráter regional, em alguns casos expressamente separatistas.
O espírito republicano se contrapondo ao espírito monárquico e aristicratico, até então dominante. O surgimento de novos atores políticos, ávidos em ampliar a sua participação, expunha a fragilidade que acometia o governo imperial. Eles se dividiam em três grupos diferentes: militares positivistas, evolucionistas e revolucionários, distribuídos pelo mapa geopolítico do Império. Depreende-se daí que o republicanismo não era um movimento único e contínuo. Porém, convergente no que diz respeito à oposição ao regime monárquico.
Em 1889, no Rio de Janeiro, até então capital do país, Marechal Deodoro da Fonseca liderou uma ofensiva que derrubou a Monarquia. Na mesma noite, o Marechal assinou um manifesto que deu início à República Federativa e Presidencialista no Brasil. A República, então, nascia através de um golpe militar, não havendo, por parte da população, uma vontade clara de depor o Imperador. Foi dado um prazo para que a família real deixasse o país. Mesmo tendo sofrido uma deportação humilhante, Dom Pedro II escreveu “Resolvo, cedendo ao Império das circunstâncias, partir com toda a minha família amanhã, deixando esta pátria de nós estremecida. Conservarei do Brasil a mais saudosa lembrança, fazendo ardentes votos por sua grandeza e prosperidade.”
Na verdade, a mudança de governo, de monarquia para república, foi uma imposição movida por interesses nada republicanos. Alceu Amoroso Lima chegou a afirmar que “o Brasil se formou às avessas, começando pelo fim. Tivemos república, antes de consolidar um verdadeiro espírito republicano”.
Rui Leitão



