O tema que abordamos esta semana é delicado e pode gerar opiniões diversas. Meu objetivo, no entanto, é puramente didático: esmiuçar o que as Sagradas Escrituras dizem sobre o sopro e a imposição de mãos, analisando-os à luz das manifestações que observamos em certas igrejas pentecostais, neopentecostais e na renovação carismática católica. Não tenho a intenção de afrontar, escandalizar ou atacar a fé de ninguém, mas sim de compartilhar o conhecimento que aprofundo por meio do estudo da Palavra de Deus, que é o meu guia.
Para isso, examinaremos as referências bíblicas ao sopro e à imposição de mãos, e também a compreensão do Espírito Santo, para verificar se há alguma correlação com fenômenos como quedas durante o culto e um suposto descontrole psíquico nos fiéis.
O sopro na Bíblia é, desde o princípio, um ato intrinsecamente ligado à vida e à criação. Em Gênesis 2:7, a Escritura revela: “Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente”. Aqui, o sopro divino é a essência da existência humana, uma doação de vida, e não um ato que induza ao desmaio ou à inércia.
Em um contexto de Nova Aliança, João 20:22-23 nos apresenta Jesus usando o sopro sobre seus apóstolos, dizendo: “E, havendo dito isso, soprou sobre eles e disse-lhes: — Recebam o Espírito Santo. Se de alguns vocês perdoarem os pecados, são-lhes perdoados; mas, se os retiverem, são retidos”. Neste momento crucial, o sopro de Jesus simboliza a capacitação e a concessão de autoridade espiritual para a missão de perdoar pecados, preparando-os para o Pentecostes. Não há qualquer indicação de que esse sopro tenha provocado quedas físicas, desmaios ou qualquer forma de sono, como ocasionalmente presenciamos em alguns cultos contemporâneos.
Por fim, em Ezequiel 37:9-10, a visão do vale de ossos secos demonstra o sopro como um poderoso agente de restauração e revitalização: “Então ele me disse: — Profetize ao espírito. Profetize, filho do homem, e diga ao espírito: Assim diz o Senhor Deus: Venha dos quatro ventos, ó espírito, e sopre sobre estes mortos, para que vivam. Profetizei como ele me havia ordenado. O espírito entrou neles, eles viveram e se puseram em pé. Formavam um exército, um enorme exército.” Claramente, o sopro aqui é o poder vivificador de Deus para trazer vida e restauração a Israel, sem qualquer menção a quedas ou desmaios.
A imposição de mãos também possui significados e propósitos bem definidos nas Escrituras, desde o Antigo Testamento. Em Gênesis 48:14, vemos Jacó impondo as mãos para abençoar os filhos de José, e em Números 27:23, Moisés impõe as mãos sobre Josué para designá-lo como seu sucessor. Em ambos os casos, a imposição de mãos simboliza a transmissão de bênçãos, autoridade e consagração para um serviço específico, denotando ordem e propósito.
No Novo Testamento, Jesus e os apóstolos frequentemente utilizavam a imposição de mãos para a cura divina. Marcos 6:5 e Atos 28:8 mostram que este ato era um canal para o poder de cura de Deus, com o foco na restauração da saúde dos enfermos, e não em causar quedas ou descontrole. Em relação ao recebimento do Espírito Santo, Atos 8:17 e Atos 19:6 relatam que a imposição de mãos por apóstolos era acompanhada de manifestações como profetizar e falar em línguas. Contudo, é fundamental notar que as Escrituras não registram quedas físicas ou desmaios como resultado direto ou esperado desse ato. As línguas, nesse contexto, eram para a edificação e compreensão mútua, diferentemente de manifestações ininteligíveis. A imposição de mãos servia também para a ordenação e o envio de ministros, conferindo-lhes autoridade para o serviço (Atos 6:6; Atos 13:3).
No que tange a comportamentos exacerbados e euforias que por vezes beiram a desordem em alguns ambientes de culto, a Bíblia nos oferece uma clareza fundamental sobre a natureza do Espírito Santo. Gálatas 5:22-23 declara categoricamente: “o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio”. A paz aqui não é apenas a ausência de conflito, mas uma serenidade profunda, uma estabilidade interior que é intrínseca à Sua presença. O Espírito Santo não é um gerador de confusão, mas um consolador que traz a paz que excede todo entendimento, conforme prometido por Jesus em João 14:27: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.”
Adicionalmente, a própria natureza de Deus, e por extensão do Espírito Santo, é de ordem e decência. Em 1 Coríntios 14:33, o apóstolo Paulo afirma: “Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos.” Este versículo é crucial para entender que qualquer manifestação do Espírito Santo visa à edificação, à ordem e à harmonia no corpo de Cristo, não ao caos ou à desorganização. Comportamentos que denotam perda total de controle, gritos desordenados ou gestos incoerentes, como “subir em paredes de igreja entoando gritos”, não encontram paralelo na descrição bíblica do que o Espírito Santo opera. A Sua ação primordial é a transformação interior do indivíduo, capacitando-o para uma vida que reflita o caráter de Cristo, marcada pela paz e pelo domínio próprio.
Está mais do que claro que o sopro divino e a imposição de mãos, em seus contextos bíblicos, não estão correlacionados a desmaios, quedas, sono ou descontrole psíquico. Tais fenômenos observados em algumas igrejas não encontram suporte teológico e bíblico direto nas descrições da Palavra de Deus. Embora eu respeite a fé e as experiências individuais, o meu guia é a verdade contida nas Escrituras. A atuação do Espírito Santo é para trazer vida, cura, bênção, capacitação e, acima de tudo, paz e ordem.
Portanto, peço a cada um de vocês que analisem cuidadosamente as Escrituras para discernir as verdadeiras manifestações do Espírito Santo, que visam à edificação e à glória de Deus, mantendo a paz e a ordem.
Finalizo sempre com uma frase, e hoje escolhi a do renomado escritor e teólogo britânico C.S. Lewis: “A verdade divina não atordoa a alma, mas a ilumina; não a derruba, mas a eleva.”
Júnior Belchior



