Patrícia Rehder Galvão, conhecida como Pagu, nasceu em São João da Boa Vista, SP, em 1910. Embora não tenha participado da Semana de Arte Moderna, em 1922, pois na época só tinha doze anos de idade, foi considerada a musa dos modernistas. O apelido de Pagu foi dado pelo poeta Raul Bopp, quando lhe dedicou o poema “Coco de Pagu”. Era uma ardorosa defensora das causas feministas e tinha um comportamento considerado fora dos padrões do seu tempo, apesar de pertencer a uma família burguesa. Fumava e bebia em público e manteve diversos relacionamentos amorosos.
Ao mudar-se com a família para a capital paulista, em 1925, onde conseguiu um emprego de redatora, assinou uma coluna no Brás Jornal, utilizando o pseudônimo de Patsy, escrevendo artigos contra o governo e as injustiças sociais. Ao completar 18 anos e concluir o curso Normal, se integrou ao movimento antropofágico, liderado pelo casal Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral.
Em 1930, chocou a sociedade ao casar-se, grávida, com Oswald de Andrade, quando passou a militar no Partido Comunista. Participou ativamente de uma greve de estivadores na cidade de Santos, onde foi detida, tornando-se a primeira presa política da ditadura Vargas. Libertada três anos depois, sob o pseudônimo de Mara Lobo, publicou o livro Parque Industrial, que viria a ser o primeiro romance proletário da literatura brasileira.
Em seguida viajou para a Europa como repórter, oportunidade em que frequentou alguns cursos na Sorbonne, quando se filiou ao Partido Comunista Francês. Lá foi presa com documentos falsos, mas liberada após intervenção do embaixador brasileiro Souza Dantas junto ao governo francês. Entrevistou Sigmund Freud e participou da coroação do último imperador chinês Pu-Yi, de quem obteve as primeiras sementes de soja que foram introduzidas na economia agrícola de nosso país.
No seu retorno ao Brasil separou-se de Oswald de Andrade, com quem teve um filho, Rudá de Andrade. Retomando suas atividades jornalísticas, foi novamente presa e torturada pelas forças repressivas da ditadura Vargas, ficando encarcerada por cinco anos. Ao sair da prisão, desliga-se do Partido Comunista e adere ao trotskismo, e se incorpora à redação do jornal A Vanguarda Socialista.
Em 1945 casou-se com Geraldo Ferraz, jornalista da A Tribuna de Santos, cidade na qual passaram a viver. Desse casamento nasce seu segundo filho, Geraldo Galvão Ferraz. Em 1950 disputou, sem sucesso, uma vaga de deputada estadual. Dedica-se, então, ao teatro, tornando-se uma importante animadora cultural de Santos, incentivando grupos amadores. Nas suas publicações costumava usar pseudônimos. Nos contos policiais que escreveu na revista Detective, dirigida por Nélson Rodrigues, assinava seus textos como King Shelter.
Acometida de um câncer, viajou para Paris com o propósito de se submeter a uma cirurgia, sem resultados positivos. Volta ao Brasil e morre em 12 de dezembro de 1962, em decorrência da doença. Na véspera de sua morte, um último texto seu publicado, o poema “Nothing”. “Nada mais do que nada/Porque vocês querem que exista apenas o nada/Pois existe o só nada”
Foi uma mulher que sempre assumiu suas paixões e angústias, em busca da realização dos sonhos. Seus ideais nunca perderam a atualidade. Lúcia Teixeira, uma de suas biógrafas, assim se referiu a ela: “Falar de Pagu, é evocar, nessa paisagem cinzenta em que vivemos, a esperança, a bondade, o amor, o esforço generoso que nunca buscou recompensa”. Mas tem uma frase dela própria que sintetiza bem a sua entusiasmada atuação como idealista: “Sonhe, tenha até pesadelos se necessário for, mas sonhe”.
Rui Leitão



