A imagem negativa dos políticos no atual cenário brasileiro, tem ensejado o movimento da antipolítica. Fixaram a ideia de que todos os políticos são corrompidos. Se prestarmos bem atenção, esse sentimento é mais uma das hipocrisias que a sociedade brasileira costuma viver. Os discursos se distanciam das práticas, sejam por parte dos próprios atores políticos, sejam nas atitudes cotidianas dos cidadãos. No fundo é uma estratégia de marketing, com o propósito do aproveitamento da desilusão e anseios da população, trabalhando falsamente os valores da moral e da honestidade, para construir novas lideranças. Insistem na proclamação de que é preciso fazer com que os “cidadãos de bem” cheguem ao poder. Estamos vendo quanto é falaciosa essa argumentação.
Paradoxalmente vemos velhos políticos negando a política. “Não sou político, sou gestor” é o mantra preferido. Mas o objetivo é promover o surgimento dos redentores do caos. Já dizia Platão que o “pior analfabeto é o analfabeto político”. A massa alienada absorve facilmente a retórica de uma moralidade extrínseca ao campo político. Os atos e as palavras contradizendo o que pensam verdadeiramente, com o intuito de seduzirem o eleitorado. São manifestações discursivas que omitem ou negam parcialmente verdades que, conhecidas do público, tornar-se-iam prejudiciais à imagem que pretendem construir.
O grande problema desses que se arvoram antipolíticos é que não conseguem se olhar no espelho. Arquiteta-se um politicídio seletivo, direcionado ostensivamente aos adversários dos que se apresentam como “salvadores da pátria”. São predadores ideológicos a serviço de interesses nada patrióticos. Na maior desfaçatez, muitos dos que atuam há décadas no cenário político nacional, se apresentam como os diferentes, antíteses dos antigos praticantes da política que conhecemos. Gestados na anomia social, fantasiam-se de “novos” na política. Lobos na pele de cordeiros.
Não confundir “política” com “politicagem”. O descrédito generalizado dos políticos, se estabelece no campo semântico da mentira. A demonização da política, em suma, é a negação da democracia. As imperfeições do sistema político só serão corrigidas, com mais democracia, não com menos. Menosprezar a arte da política, fortalecendo práticas demagógicas de supostos guardiões da moralidade e dos bons costumes, imaginando-os seres perfeitos, é apostar perigosamente em soluções fáceis, na maioria das vezes, equivocadas, do ponto de vista da democracia. É bom desconfiar de quem coloca seu nome numa disputa eleitoral com a afirmação “não sou político”. Assim nasce o populismo radical, alicerçando a retórica reacionária que busca construir sonhos trabalhados no imaginário das massas, estimulando o saudosismo e renegando o idealismo transformador. Instala-se a oclocracia, governo das multidões irracionais.
Há uma passagem bíblica que nos adverte para o cuidado com esses aproveitadores da boa fé do povo, quando Jesus, no Sermão das Montanhas, falou: “Guardai-vos dos falsos profetas que vêm a vós vestidos de cordeiros, mas por dentro são lobos vorazes”. (Mateus 7,15). Nem será preciso falar mais nada.
Rui Leitão



