Nunca entendi a expressão “terrivelmente evangélico” cunhada pelo presidente da república para definir o perfil do ministro do STF a ser indicado por ele para substituir o decano Celso de Melo. Fui ao dicionário me certificar do significado da palavra terrível. Encontrei: que infunde ou causa terror, assustador, pavoroso, temível, medonho. Depois fui em busca do que pode se entender como evangélico. Lá estava: respeitante ao Evangelho; que se rege pelas regras de Cristo; protestante.
Complicou mais ainda minha capacidade de entendimento para a qualificação desejada pelo chefe da nação como condicionante na escolha do juiz da suprema corte que terá a responsabilidade de nomear. Como considerar que alguém que obediente aos preceitos definidos no Evangelho possa ser, ao mesmo tempo, assustador, atroz, amedrontador? O adjetivo terrível jamais pode se harmonizar com o compromisso de aplicador da justiça com ética, como nos ensina o Evangelho. O juiz não pode ser justo, por ser evangélico, e terrível, utilizando-se de procedimentos que causam terror.
Um evangélico, em nenhuma hipótese, pode produzir resultados maléficos, nefastos, sinistros. Ele tem que operar a justiça seguindo padrões e garantias legais, não se desviando dos compromissos éticos e morais que são impostos no comportamento cristão. Então, impossível ser “terrivelmente evangélico”. Na verdade, tenho dificuldade em aceitar a necessidade de ser evangélico para qualificar-se a exercer o alto posto de ministro do STF. Afinal o Estado brasileiro é laico. O fato de ser evangélico não garante que deva ser um bom julgador. Muito menos se for uma pessoa “terrivelmente evangélica”. Está faltando aí o senso de adequação.
Claro que não desejamos um ministro anticristão. É interessante que seja ele um julgador que, além de conhecer profundamente a Constituição, se conduza na conformidade do que estabelece o Evangelho de Jesus. Talvez, assim, tenhamos menos risco de termos um ministro “terrível”, que seja muito mais temido do que respeitado por seu saber jurídico. A designação do futuro ministro não pode ser um acerto de contas, numa espécie de compensação por ter sido majoritariamente votado pela comunidade evangélica. Deus não aprovaria essa negociação política.
Tudo o que um cristão não pode ser é “terrível”. Um discípulo de Jesus possui entre seus atributos, a humildade, a mansidão, a paciência, a compaixão. O “terrível” não se coaduna com essas qualidades. Essa é mais uma das declarações polêmicas que habitualmente o presidente gosta de proclamar. Tenho a impressão, ou quase certeza, de que ele próprio não sabe explicar bem o que seja um ministro “terrivelmente evangélico”. Isso não passou de um jogo retórico para agradar boa parte dos seus eleitores.






