PASQUIM

PASQUIM – RUI LEITÃO

A censura imposta aos veículos de comunicação pelo AI 5, não nos deixava opção de leitura sobre os acontecimentos cotidianos. Nada do que se escrevia nos jornais e revistas da época refletia o pensamento isento sobre qualquer assunto, pois só seria publicado aquilo que era permitido pelo governo.

Foi aí que alguns intelectuais cariocas, entre os quais o cartunista Jaguar e os jornalistas, Tarso de Castro e Sérgio Cabral, ousaram produzir um jornal alternativo. Queriam fazer algo que saísse do costumeiro. Tinha que ser uma publicação que fugisse aos padrões da rigorosa seriedade da imprensa conhecida na época. Pensaram em editar um tabloide carregado de sátiras e críticas, fazendo uso do humor inteligente.  Com essas características, surgiu em junho de 1969, o Pasquim.

Sua primeira edição foi de apenas vinte mil exemplares, mas causou tanto sucesso que pouco antes de completar um ano de existência sua tiragem já alcançava o impressionante número de duzentas mil unidades. Circulava semanalmente. Ficava ansioso esperando sua chegada às bancas para adquiri-lo.

Nele se lia sobre tudo: política, sexo, música, literatura, feminismo, comportamento, filosofia, etc. Foi a expressão mais firme da contracultura. As entrevistas que trazia eram bastante interessantes porque exploravam temas sérios com toques de irreverência, ironia, subversão de princípios tidos como conservadores. Uma delas, que provocou muita polêmica, foi a que fizeram com Leila Diniz, ensejando inclusive a prisão dos seus diretores, por entenderem os sensores oficiais que as manifestações da atriz atentavam contra a moralidade e os bons costumes. Caracterizava-se pelo deboche sem restrições, desrespeitando o que pudesse ser considerado como formalidade jornalística. A intenção era mesmo incomodar os poderosos de plantão. As entrevistas que publicava a cada semana eram como se fossem descontraídos bate-papos entre amigos, preponderando a informalidade. Tornou-se rapidamente um dos maiores fenômenos editoriais do país.

O jornalzinho trazia nas suas páginas artigos de figuras que se destacavam no mundo intelectual brasileiro e se sentiam na obrigação de se posicionar, de forma subliminar, contra a ditadura que estávamos vivendo. Ziraldo, Millor, Henfil, Paulo Francis, Chico Buarque, Glauber Rocha, Rubem Fonseca, entre outros, eram colaboradores do jornal, o que já basta para se avaliar o nível cultural das suas publicações.

O governo tentou de todas as maneiras, boicotar sua circulação, mas não conseguiu. Quando proibiam, havia sempre um jeito de fazê-lo chegar às mãos das pessoas que se acostumaram a tê-lo como leitura obrigatória. Teve vinte e dois anos de existência. Sua última edição foi em 1991.

O Pasquim fez história e ajudou a juventude dos anos setenta a pensar, contrariando o desejo dos ditadores, que queriam uma mocidade alienada, despolitizada e sem capacidade para discutir e debater as questões que interessavam a sociedade. Era, portanto, a nossa tábua de salvação num mar revolto, em que o perigo de afogamento nas águas turvas e escuras da ditadura se fazia tão ameaçador. Foi a luz que nos ajudou a caminhar na escuridão dos anos de chumbo.

Rui Leitão

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